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DDO: Ceptro da Pureza

por Andrusca ღ, em 06.02.14

Capítulo 8

Jovens Adultos * Parte 1

 

- Este ano foi um ano de mentalizações, para nós. Mentalizarmo-nos de que quando sairmos daqui vamos realmente ser alguém; mentalizarmo-nos de que podemos ir para a universidade, ou não; mentalizarmo-nos que vamos finalmente viver pelas nossas próprias regras. Arranjar as nossas próprias casas, encontrar um trabalho que gostemos, talvez conhecer a pessoa que faz com que acordar cedo valha a pena. Tudo começa agora, neste momento. Tivemos um ano inteiro para nos mentalizarmos de que a vida real está prestes a começar. E digo-vos, eu ainda não consegui. É difícil sair por aquele portão e não voltar mais. Vai ser estranho não acordar a pensar que estou atrasada para o Liceu de Diamond City. Que nunca mais vou estar atrasada para isso. Que não vou andar apressada pelos corredores, que não vou pedir desculpas pelo atraso à professora de Inglês ou de Biologia, ou ao de Educação Física. Hoje, neste mesmo momento, paramos de ser as crianças que vocês viram crescer, para nos tornarmos nos adultos com que sonham. Deixamos as fraldas e as chuchas por um lugar no mundo dos crescidos. Um ciclo acaba, para outro começar. Um muito, muito, mais difícil e que certamente vai estar cheio de provas a serem superadas. Provas essas que temos que encarar de maneira positiva e nunca desistir até que as superemos. Neste ano perdemos alguém muito querido para nós. Um colega, um amigo, irmão, filho. O Tony era… como é que explico? Ele era aquela pessoa que conseguia fazer alguém soltar uma gargalhada no dia mais negro. Era teimoso, e chato, mas era um verdadeiro amigo. Um amigo que nunca poderá concretizar os seus sonhos. Que nunca se vai tornar num médico, ou advogado, ou jornalista. Que não vai conhecer a mulher da sua vida nem ter os filhos lindos que imaginou. Um amigo que partiu demasiado cedo mas que, tenho a certeza, nos está a vigiar bem de perto. Ele sempre disse que devíamos seguir os nossos sonhos e fazer o que nos fazia felizes. E eu acho que ele tinha razão, não devemos desistir do que nos faz felizes. Por isso digo-vos, finalistas: saiam desde palco e façam o que querem fazer, concretizem os vossos sonhos, lutem pelo que acreditam. E mais importante, vivam. Porque este é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Obrigado.

Quando Helen parou de falar ao microfone e retrocedeu ao seu lugar, ao lado de todos os outros finalistas, os espectadores levantaram-se das suas pequenas cadeiras brancas propositadamente colocadas na relva do parque de Diamond City, em frente ao enorme palco, e uma grande salva de palmas soou. Uns apenas batiam palmas, mas outros assobiavam e gritavam o nome de Helen, orgulhosos das palavras da amiga.

Chelsea, ao ouvir falar de Tony, dirigiu o olhar para o céu, como se estivesse a tentar olhar para ele, e colocou um pequeno sorriso nos lábios. Seria perfeito se ele pudesse concretizar todos daqueles seus sonhos. Mas não podia, e a ruiva estava finalmente a começar a aceitar isso, ainda que bastante magoada e contrariada.

O dia estava sereno, não se podia pedir um dia mais bonito para um rito de passagem como este. Não havia uma única nuvem no céu, o único ruído que se fazia ouvir era, ocasionalmente, um pássaro ou outro a voar de uma árvore para outra. A relva do parque parecia ter hoje um brilho especial, e todos estavam radiantes. Os finalistas, todos de batinas azuis claras e de cartolas nas cabeças, encontravam-se em cima do palco. Já tinham, um a um, sido chamados para receberem os seus diplomas. Na plateia os amigos ou os familiares, fossem pais ou avós, irmãos ou primos, tiravam fotografias, gravavam em câmara ou aplaudiam. Até a última coisa a fazer já tinha sido feita. O discurso da representante dos alunos. O discurso de Helen.

O que restava agora?

Apenas que todos se dirigissem às mesas redondas, meticulosamente colocadas na relva, para os comes e bebes e que se ligasse a aparelhagem. Era a última festa dos finalistas como alunos do Liceu de Diamond City.

Chelsea, com o cabelo encaracolado preso numa longa trança, olhou para os pais e sorriu-lhes. Viu, ao lado da mãe, também Richard, PJ e Jensen. O resto dos seus amigos estavam no palco com ela, também eles finalistas.

O director da escola, um homem de cinquenta e poucos anos, de bigode escuro, tomou o lugar de Helen ao microfone e clareou a garganta antes de falar.

- Amigos, famílias, gente de Diamond City… os finalistas de 2012! – Anunciou, sorrindo.

E foi então que todas as cartolas começaram a voar. Cada aluno agarrou na sua e mandou-a ao ar, não se importando onde é que iam cair. A ruiva riu-se, e Will, que estava ao seu lado, riu-se também. Para ele, aquela parte era a mais divertida. Era estranho estar ali a fingir ser uma pessoa normal e a passar por aquilo, quando sabia que na Casa dos Guardiães nunca haveria nada similar.

Saíram do palco e cada aluno correu para quem o tinha ido assistir, ou então procurava pela cartola certa. Chelsea dirigiu-se, com Will, para ao pé dos seus pais, que a abraçaram.

- Estou tão feliz – declarou Margaret, com os olhos ligeiramente brilhantes – A minha bebé.

Chelsea revirou os olhos e riu-se.

- Não comeces a chorar – pediu-lhe.

O xerife olhou-a com orgulho mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a bela rapariga de caracóis ruivos foi levantada e carregada ao colo por Richard, PJ e Jensen, que faziam a festa às suas maneiras. Quando a voltaram a pousar no chão, cada um deles deu-lhe um abraço bem apertado.

- Conseguiste caracolinhos – murmurou-lhe Jensen, aos ouvidos – Depois dos atrasos todos, das negativas, da preguiça, da pouca aptidão para o estudo, do…

- Já percebi – interrompeu-o ela, para lhe dar uma pequena cacetada no peito – Escusas de continuar.

Jensen riu-se e mordeu o lábio. Como adorava brincar assim com ela. Mas, ao ver que ela não lhe ia dar atenção, revirou os olhos e pôs-se à sua frente, agarrando-lhe nos ombros.

- Oh caracolinhos, não vais ficar chateada comigo, pois não? – Perguntou-lhe, com um tom irresistível e os olhinhos azuis a olharem directamente nos dela.

Chelsea suspirou e tentou manter-se séria, mas não foi capaz.

- Não. Não tens culpa de não teres tudo a funcionar bem aí dentro – acabou por lhe dizer, fazendo-o rir também.

- Temos que ir festejar! – Exclamou PJ – Hoje à noite vamos ao Drink&Tell.

Todos concordaram, e depois dispersaram-se pelo sítio. Uns foram para ao pé da comida, outros ter com outros amigos. Chelsea ficou parada, a observar as pessoas. PJ tinha razão, hoje era um dia especial. A ruiva tinha finalmente terminado o ensino obrigatório. Tinha chegado ao fim da viagem para se tornar adulta, já tinha chegado ao destino final. Agora, a juntar a todas as suas obrigações como Defensora, ia também começar a ter algumas como Chelsea. Mas mesmo a saber isso, ela estava contente. Agora tinha chegado a altura em que ia de facto começar a viver a sua vida. Começar a tomar as rédeas e a fazer o que achava ser o melhor. “Assim que arranjar trabalho… e dinheiro… e casa… e carro”, pensou, ficando ligeiramente menos entusiasmada.

 

 

- Eu ajudo-te – ofereceu-se Chelsea, ao mesmo tempo que agarrava em dois pratos e os transportava para a bancada da cozinha.

- Então não ias sair com os teus amigos? – Perguntou Margaret, ligando a torneira para os passar por água antes de os colocar dentro da máquina.

- Ainda falta algum tempo.

Chelsea acabou de ajudar a mãe a arrumar as coisas do jantar, enquanto o pai se foi sentar no sofá da sala a ver televisão e Richard subiu para o quarto, para empatar tempo até que a hora chegasse.

Às nove e meia em ponto encontrou-se com os amigos no Drink&Tell. Pediram as bebidas e sentaram-se nas mesas, sempre divertidos. PJ e Richard discutiam a vida de universitários com Cassie e Helen, que estavam mais do que interessadas, e Will bocejava. Esse assunto entediava-o, pois não tinha qualquer intenção de ir para a faculdade. Os Guardiães garantiam a sua permanência na Terra sem que tivesse que trabalhar ou estudar, pois apenas tinha ido para o Liceu de Diamond City como um modo de conhecer e controlar Chelsea. No futuro pretendia ser um Guardião, e não havia nenhum curso para isso na universidade local. Era algo que apenas se podia aprender com a prática e a demonstração de outros Guardiães.

- Mas a melhor parte são as raparigas! – Disse PJ, dando mais um gole na sua cerveja – As universitárias são lindas. Não são, manos?

- Lindas! – Concordou Richard.

- Vá lá rapazes, ainda me vão pôr em maus lençóis – brincou Jensen.

- Mas agora a sério, é uma boa experiência – afirmou Richard – Vocês vão amar. Certo Chels? – Chelsea não respondeu – Chelsea?

- Hum? – Parecia que apenas tinha acordado agora, mas a verdade era que a ruiva tinha ouvido toda a conversa.

- Deixa lá. Onde é que estava a tua mente? – Perguntou-lhe o irmão.

A ruiva olhou para os amigos com um ar de pena, mas depressa disfarçou e meteu um sorriso no rosto.

- Não interessa – apressou-se a dizer, para de seguida beber o resto da sua bebida colorida e levantar-se – Preciso de apanhar ar, já volto.

- Eu vou contigo – Jensen ia-se levantar, mas Chelsea tocou-lhe no ombro e empurrou-o para a cadeira, à medida que abanava a cabeça – O que é que se passa?

- Nada – mentiu ela – Fica, não tens que vir. São só uns minutos, só preciso de apanhar ar.

Ela deu meia volta e começou a dirigir-se à porta, por onde saiu. Começou a andar pela rua já praticamente deserta e fechou os olhos, com a brisa fresca a ir-lhe de encontro às bochechas levemente coradas. Inspirou, e depois voltou a abrir aqueles olhos cor de esmeralda. Estava a começar a sentir-se sufocada dentro daquele bar. Todas as conversas sobre o futuro, todos os seus amigos com as ideias tão definidas e o plano pronto a seguir. Ela não conseguia suportar isso. Não conseguia suportar conversas sobre o amanhã ou a próxima semana, não conseguia ser uma parte delas. Depois da morte de Tony parou de pensar que podia fazer algo no dia seguinte, que haveria sempre outra oportunidade para concretizar algo. Começou a pensar que não se pode adiar o que se tem que fazer, que depois pode ser tarde demais. 

 

Ps: acho que ninguém leu o capítulo anterior, da Armadura do Coração

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7 comentários

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De Yria Rivers a 08.02.2014 às 20:20

Eu odeio o inverno, para mim era sempre ou primavera ou verão
fico ansiosa para ver o que é, pode ser que até use uma ideia parecida, só que não é este ano, porque este ano passo sozinha ahahhaha
eu ja tive o meu teste de matemática na quinta, agora vou tentar escrever um bocadinho e se a minha net der vou tentar encontrar-me onde deixei de ler ^^
beijinhos, eu vou comentando
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De Bia a 09.02.2014 às 15:19

Voltaste! Bem, já li todos os capitulos que tinha em atraso da DDO, mas ainda me falta os da "Armadura do Coração", que já acabou, não é? Depois digo alguma coisa sobre isso :)
Quanto à Chelsea, ainda não recuperou totalmente por causa do Tony e tudo o mais, mas tudo vai ficar bem, espero eu!
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De Andrusca ღ a 09.02.2014 às 15:21

Pois voltei Bia, e tu também, bem-vinda de volta u.u
Espero que estejas a gostar ^^
Sim a "Armadura do Coração" já acabou, acho que foram só mais uns 4 capítulos desde que pus o blog em hiatus (:
Beijinho*
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De Maria a 09.02.2014 às 17:55

Espero que ela desperte e se anime
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De Bruna a 11.02.2014 às 16:39

Por vezes parece que a Chelsea se isola em vez de confiar no Jensen... mas é sempre dificil perder um amigo..
Fico à espera do próximo.:)
Provavelmente vou demorar a responder ao capítulo, como já aconteceu agora, mas já comecei o semestre e não há descanso!
Beijinho
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De Andrusca ღ a 11.02.2014 às 18:45

Sim ela isola-se um bocadinho (:
É normal, eu percebo, quando começar o meu também vou começar a andar com a cabeça a bater nas paredes...
Boa sorte linda, beijinhos*
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De ♥ Annie ♥ a 17.02.2014 às 17:09

Opá tu não estás bem a ver o quanto eu gostei deste capitulo..
Até punha aqui umas quotes das partes que amei mesmo muito, mas seriam muitas..
O discurso que a Helen fez foi simplesmente lindo, e concordo totalmente com tudo!
Eu tambem tenho imenso medo do futuro. Quando chegar a hora de me ir embora, vou sentir tantas mas tantas saudades destes tempos de secundario e basico. Sempre que passava para um novo nivel (primaria, basico, secundario...) sentia sempre imensas saudades dos tempos anteriores. As escolas, os professores, as pessoas, tudo.
O trio maravilha (Rich, PJ e Jensen) tem imensa piada! Adoro-os tanto!
Compreendo o que a Chels sente. No seu caso ainda por cima, nunca se pode ter garantias do dia de amanha..
Mas vá, adorei mesmo mesmo muito este capitulo s2

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