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Armadura do Coração

por Andrusca ღ, em 09.02.14

Bem, a Armadura do Coração acaba aqui. Acho que provavelmente só houve uma pessoa a segui-la do príncipio ao fim, mas se houve mais então é a vossa oportunidade de dizerem o que acharam (:

 

Capítulo 38

 

- O teu dragão está cada vez mais mal-educado! – Entrou Eresm a barafustar pela biblioteca, enquanto Samantha arrumava alguns livros, na Casa dos Kendric.

- O que é que se passou agora? – Perguntou ela, já a rir-se.

Parecia uma verdadeira lady, com um vestido de renda branca que lhe assentava que nem uma luva e o cabelo loiro apanhado num bonito carrapito.

- Cuspiu-me fogo… para o rabo! – Queixou-se ele – Tudo porque o pirralho do Milo achou que era engraçado mandá-lo fazer isso!

De novo, a rapariga riu.

- Eles tornaram-se mesmo amigos, hum? – Perguntou, suspirando depois – E então, Eresm, o que temos para fazer hoje?

Desde que derrotaram Marx e que Samantha decidira ficar em Walcaster, há aproximadamente cinco meses atrás, que tem andado atarefadíssima a tentar remediar tudo na cidade. Os estragos da batalha estavam quase todos arranjados, os guardas da oposição já foram julgados e enviados para serem presos numa cidade longínqua ou banidos de todo o reino, e tudo se parecia estar a encaminhar. Samantha não o mostrava, mas sentia-se esgotada. Esgotada de ordenar os empregados, de conduzir as obras, de opinar sobre tudo. Elaine, que se tinha mudado também para a Casa, apoiava-a incondicionalmente, mas tal como Eresm e Quorq podia ver que ela não estava feliz. Que o seu coração pertencia a outro lugar. Aquele já não era o seu lar.

- Sam, o que é que andas a fazer? – Perguntou o amigo, agora membro da sua guarda pessoal, sem rodeios.

- Estava a guardar uns livros… aproveitei uma pausa ontem para os ler… - Ele deitou-lhe um olhar forçado e ela suspirou – Estou a tratar de Walcaster, Eresm, é o que tenho de fazer.

- Então e o que queres fazer? Esperas mesmo que acredite que um espírito livre como tu está destinado a ficar preso e miserável nesta Casa, longe dele?

- Dele? Longe de quem?

- Sabes bem do que é que ele está a falar – disse Elaine, acabada de chegar à biblioteca – Estás infeliz, Samantha. E já há uns meses.

Samantha respirou fundo e encolheu os ombros.

- Sim, bem… eu não tenho de ser feliz. Tenho de cuidar do meu povo. De Walcaster, dos dragões… é a minha herança, é o que tenho de fazer.

Elaine abanou a cabeça e aproximou-se dela, agarrou-lhe na mão e pousou-a por cima do seu peito.

- Sentes o teu coração, minha querida? – Perguntou-lhe, não lhe dando tempo para responder – Aposto que bate sempre à mesma velocidade… excepto quando estás com alguém especial, não tenho razão?

- Elaine…

- Ele também deve estar a sofrer. Esquece o dever por um segundo, vai ser feliz…

A rapariga sorriu. “Se ao menos fosse assim tão simples…”, pensou, engolindo em seco depois. Olhou para Eresm, depois para Elaine.

- Elaine – disse, com uma voz séria – Toma conta das coisas enquanto não estou. Eresm, toma conta dela.

 Pousou o resto dos livros em cima de uma mesa e saiu pela porta a correr como já não fazia há imenso tempo. “Mas é assim tão simples”, pensou, “as pessoas é que complicam”.

- Whoa, onde é que vai com tanta pressa? – Perguntou Matilda, por quem passou.

- Ser feliz! – Respondeu-lhe, sem abrandar o passo.

Chegou ao celeiro e afagou o focinho de Spike.

- Milo, vou ter que roubar o teu amigo por algum tempo – disse, para o rapaz que cuidava do dragão, enquanto subia para as costas deste – Vamos Spike… uma última aventura.

Montada no dragão Samantha demorou apenas horas até chegar à Cidade Real e, como estes animais já eram uma constante em todo o reino e até já tinham espaços próprios para ficarem instalados, não houve qualquer problema pela parte de nenhum soldado. Deixou-o à porta, ordenou-lhe que se portasse bem, e entrou pelo palácio. Teve logo três ou quatro empregados de volta de si, mas dispensou-os a todos pois, assim que soube do paradeiro de William, não quis saber de mais nada. Ele estava no quarto quando bateram à porta e a abriram.

- Sinto muito, vossa Majestade, mas a lady de Walcaster insistiu em entrar e…

- Will – interrompeu Samantha, aparecendo por trás do criado, fazendo com que o rei arregalasse os olhos – Olá.

Ele estava mudado. Mais crescido, mais adulto. Tinha o peso de um reino às costas, e nenhuma rainha para o ajudar. A barba tinha-lhe finalmente começado a aparecer, e dentro daquelas vestes reais em nada fazia lembrar aquele miúdo que brincava com Samantha na lama, para horror de suas mães.

- Sam… - murmurou ele, levantando-se da secretária em que escrevia – Podes-nos deixar – disse, agora para o criado – Sam, o que estás aqui a fazer? Há algum problema em Walcaster?

- Não – disse ela prontamente, ao mesmo tempo que abanava a cabeça – Está tudo bem em Walcaster… sou eu que tenho um problema.

- Tu? Estás doente? Estás…?

- Will pára, deixa-me falar – pediu, rindo-se – Estou bem de saúde, só… não estou bem. Não estou completa. Lembras-te da nossa última conversa? Há cinco meses?

- Claro. Ias ficar em Walcaster, endireitar as coisas por lá…

- Não é a isso que me refiro. Tive os piores cinco meses da minha vida, William.

- O que…?

- Não porque não estava a combater. Não porque não tinha nada para fazer, porque tinha. Estive sempre atarefada. Não porque não goste de ser uma lady, ou de governar uma Casa e uma cidade. Mas… andava infeliz porque faltava alguma coisa. Em toda a minha vida estive a lutar por uma causa… agora não tenho mais nenhuma luta para travar, e sinto-me aliviada. Porque isso finalmente terminou. Consegui tudo o que sempre quis… as minhas terras de volta, honrar a minha família, acabar com o Marx. Por isso imagina a minha surpresa quando comecei a sentir este vazio cá dentro.

- O que é que estás a tentar dizer, Samantha?

- Quando era criança fui forçada a fugir para que não me matassem. A esconder-me. Então quando te reencontrei, naquele dia, no bosque, escolhi fugir de novo. E tenho fugido de ti desde então. Quando estava finalmente a deixar-me aproximar mais, a ficar confortável com a ideia de te ter de novo comigo, o Marx tomou conta de tudo e fiz aquele acordo com ele, o que me afastou de novo de ti. E então quando tudo era suposto ter acabado… quando era suposto podermos ficar juntos… não ficámos. Sinto que sempre que nos encontramos é para nos separarmos de novo, Will, e estou farta disso. Acho que o que percebi foi que… não quero apenas sobreviver. Quero viver. Quero viver num mundo em que tu existas perto de mim, num mundo em que acorde ao teu lado, em que adormeça ao teu lado, num mundo em que possa ser plenamente feliz. E bolas, eu lutei por esse mundo, eu mereço esse mundo. Eu não quero ser a Samantha Kendric de Walcaster… ou o Samuel… quero ser a tua rainha, a tua mulher, a tua melhor amiga e companheira. Quero estar contigo… mais que tudo no mundo, quero estar com o homem que amo.

Após todo aquele tempo, finalmente tinha dito o que sentia e aguardava impaciente a reacção do rei que parecia estar a tentar assimilar tudo.

- Porque é que demoraste tanto? – Perguntou ele, avançando para ela para a abraçar fortemente e rodar com ela pela sala – Tens a certeza que é isto que queres…?

- Sim. Eu amo-te, William, rei de Tutleburn. Não há nada que queira mais do que estar contigo.

O casamento real não tardou a acontecer, e a felicidade de todos os envolvidos não podia ser mais que evidente. Elaine nunca escondera o desejo de ver a rapariga que tomara como sua filha finalmente achar um bom marido e uma casa, embora nunca pensara que fosse juntamente do novo rei; Eresm e Quorq gozaram e gozaram com Samantha, por ser tão forte e destemida, tão severa e fria quando necessário, e tão “menina” nestes aspectos, mas não conseguiam esconder o orgulho que sentiam por este seu “companheiro de guerra”; Raj, agora comandante da guarda real, sentia que finalmente tudo tinha sido concluído, o reino estava em boas mãos, e Samantha e William estavam finalmente nos braços um do outro como já há muito devia de ser. Spike, claro, teve também um lugar de honra do casamento, e ficou permanentemente a viver no palácio.

Os meses passaram. Samantha estava na varanda, com o cabelo loiro solto ao vento e os olhos verdes acinzentados a mirar o horizonte, com um vestido branco largo e uma mão a acariciar a redonda barriga que já tão bem se notava. William chegou-se por trás, abraçando-a e acariciando-lhe o ventre, para depois lhe dar um beijo na bochecha. Depois de tudo o que passaram, de tudo o que viveram, as coisas tinham finalmente tomado o seu rumo apropriado, e todas as guerras, espadas e sangue derramado tinham ficado para trás das costas. O reino teria agora muitos anos de paz, e Samantha podia finalmente dizer que a armadura que lhe protegia o coração tinha finalmente caído. Tinha sido desarmada por aquele seu príncipe encantado, e nada nunca voltaria a ser como dantes.

 

Fim

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1 comentário

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De ♥ Annie ♥ a 09.02.2014 às 22:54

awwwwwwwwwww, sim! Finalmente juntos!
Foi super romanticoooo, Adorei!
Gostei bastante desta história. Adoro estas histórias passadas na antiguidade, de reis e assim.

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