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Armadura do Coração

por Andrusca ღ, em 28.01.14

Capítulo 36

 

Samantha suspirou e pontapeou uma pedra enquanto, encostada a uma árvore, observava o acampamento calmo. Quase todos dormiam, e os poucos que não o faziam estavam dentro das tendas ou escondidos no silêncio da vegetação. Spike ressonava perto dos cavalos, muito pacífico e controlado.

Ela olhou para o céu e respirou fundo. Há muito tempo que não punha uma armadura como a que tinha agora vestida. Podia até jurar que o seu peso tinha aumentado. Ou talvez isso fosse a responsabilidade a falar. Sabia que se este ataque falhasse, a culpa seria sua. Mas havia algo de diferente nesta luta, pelo menos.

- Desta vez não me estou a esconder… - murmurou no silêncio da noite estrelada, sorrindo levemente. Não havia nenhum elmo a esconder-lhe a identidade. Não tinha o cabelo preso para caber dentro dele. Não tinha que se esforçar para falar “à homem”. Nunca mais seria o Samuel.

Ouviu um pequeno ruído vindo de trás de si e voltou-se rapidamente já com a mão na espada, mas sorriu assim que viu quem era.

- Estamos assustadiças hoje? – Perguntou William, rindo-se.

- Devias estar a dormir… reis deviam descansar – de novo ele riu-se, era a primeira vez que ela lhe tinha chamado isso.

- Acho que não estou habituado a isso ainda, então – retorquiu – Amanhã é um grande dia Sam, tu é que devias estar a dormir. Precisas de forças para lutar.

- Eu tenho forças. Não tenho é sono.

- Devias tentar, mesmo assim.

Ela olhou directamente para ele e sorriu-lhe de um modo algo tímido.

- Will… numa das últimas vezes que falámos disseste que me amavas…

William desviou o olhar para o chão apenas por poucos segundos, mas logo o direcionou de novo para os olhos esverdeados da loira, com um sorriso travesso nos lábios.

- E não sabias já isso? – Perguntou-lhe retoricamente. Ela parecia-lhe tão bonita naquela luz lunar, mais do que ainda já a achava, com o cabelo loiro entrançado apenas para um lado, e vestida de um modo tão forte e destemido. Ele amava-a com todo o seu coração, sempre amara, sempre amaria – Eu vou-te amar até ao dia em que ficar sem ar nos pulmões.

O coração de Samantha falhou uma batida, porém quando ia responder mais soldados despertaram e começaram a falar para o agora rei.

- Bem… acho que vou aceitar o teu conselho… e vou dormir – acabou ela por dizer, num dos intervalos da conversa dos homens – Até amanhã, Will.

- Dorme bem, Sam.

 

*

 

As linhas estavam feitas. Os dados estavam lançados. Marx antevira também o ataque e precavera-se. Assim que passaram pelas muralhas de Walcaster, ainda antes de chegarem às da Casa, os soldados de William sofreram uma emboscada, sendo forçados a começarem o combate mais cedo. Espadas voaram e sangue serviu de tinta para várias ruas mas, a muito custo e aos poucos, lá se ia avançando.

As pessoas corriam em pânico por todo o lado. Corriam para casa, para tabernas, para qualquer sítio onde fossem acolhidas e onde se pudessem sentir a salvo daquele ataque inesperado para elas.

Samantha sobrevoava a cidade montada em Spike, dando indicações aos soldados pelo que via. “Se ele cuspisse fogo dava mais jeito”, dissera Quorq na noite anterior, mas o dragão ainda não tinha sido capaz de tal.

- Spike, deixa-me ali!

O dragão baixou o voo e Samantha saltou de cima dele para o meio da luta de Eresm e Quorq com soldados de Marx, desembainhando a espada.

- Vens-te meter na luta dos outros, hum? – Brincou Quorq.

- Vocês pareciam precisar de ajuda – retorquiu ela, rindo-se também.

A partir daí prosseguiu a pé, enquanto Spike derrubava os guardas que soltavam setas pelos telhados das casas, facilitando a luta para estava em terra. Aos poucos o caminho foi sendo aberto, mas foi entre uma pirueta e um ataque que a espada de Samantha caiu no chão. Ela não foi desarmada. Largou-a. Porque a metros de si viu William ser trespassado pela espada de outro soldado adversário e sentiu como se perdesse todas as forças enquanto o via cair. Um outro guarda, aproveitando-se do seu momento de distracção, ia-a atacar mas Raj defendeu-a e apanhou-lhe a espada.

- Samantha! – Gritou, despertando-a daquela imagem terrível. Samantha agarrou na espada que ele lhe dava e deitou-lhe um último olhar antes de começar a abrir caminho por entre a multidão até chegar a William. Desarmou e derrotou o homem que estava prestes a espetar-lhe a espada no coração, e depois outro e outro. Não havia mais nada que pudesse fazer. Não podia baixar as armas e parar de lutar para se colocar ao seu lado e o abraçar. Se o fizesse ambos morreriam. E foi então que um milagre aconteceu. Do céu começou a chover fogo. Foi desenhado um círculo ardente com eles no meio, como se funcionasse como uma parede protectora que apenas tolos ousariam tentar passar, e tudo o que Samantha teve de fazer foi matar quem já lá estava dentro. Quando o fez o seu dragão aterrou perto de si e, passando pelos corpos, a rapariga deixou-se cair de joelhos ao lado de William e inclinou-se para ele, agarrando-lhe nas mãos.

- Will, não podes… - murmurou, com os olhos cheios de lágrimas que logo escorreriam pela cara já suja de pó e sangue – Já perdi tanta gente… não te posso perder a ti também.

- Shh – fez ele, com as poucas forças que lhe restavam. Apertou a mão da amada e deslizou-a até ao seu coração, que já pouco batia – Eu estava errado… Vou-te continuar a amar… mesmo sem ter ar nos pulmões.

E, dito aquilo, perdeu todas as forças e tanto a sua mão como a sua cabeça descaíram um pouco, dando sinal do que tinha acabado de acontecer.

- Will… Will nem te atrevas a deixar-me! – Gritou ela, completamente desesperada – Não podes… o que é que vou fazer sem ti…? O meu coração também só bate por ti…

As lágrimas começaram a escorregar-lhe pelas bochechas, pousou a cara no peito dele, pouco se importando com o inferno que se alastrava para lá da parede de chamas, e deixou-as correr tanto quanto quisessem. Sentia-se a sufocar, sentia um aperto no coração como já não sentia há dez anos. Sentia que lhe tinham tirado todo o seu mundo. Só se conseguia lembrar de tudo, das brincadeiras em crianças, da noite partilhada já num passado mais recente, das brigas, das conversas… e depois doía-lhe lembrar-se também que nunca mais teria nada disso.

Spike aterrou perto dela e deu-lhe um pequeno empurrão com o focinho, como se a tentasse animar, mas não obteve qualquer resposta. Olhou para o corpo do morto e depois para a dona e começou, também ele, a ficar com lágrimas nos olhos. Aproximou o seu rosto do de William e fechou os olhos, deixando que uma delas lhe escorregasse directamente para a bochecha. Não demorou mais de dois segundos até ao coração do príncipe voltar a bater, e não mais de três até ele abrir os olhos.

- Sam… - murmurou, fazendo com que o seu coração falhasse uma batida. Samantha levantou a cabeça a medo e olhou para ele, ficando estupefacta. Então olhou para Spike e, vendo os seus olhos ainda molhados, sorriu de felicidade.

- Obrigado! – Disse para o dragão, enquanto abraçava William.

- Mas… como? – Perguntou ele.

- Uma lágrima de dragão pode trazer uma pessoa de volta à vida… - explicou ela, engolindo em seco. Levantou-se e acariciou o focinho de Spike – És um bom dragão, Spike.

Spike deu-lhe mais um pequeno empurrão e depois dirigiu o olhar para o céu, soltando o rugido mais alto que Samantha alguma vez ouvira. Não foi preciso muito tempo até se começar a aproximar o que parecia ser uma grande nuvem, mas na verdade era um enorme bando de dragões que depressa começou a auxiliar os guardas de William na batalha.

- Eles não estão extintos… - murmurava Eresm, entre ataques.

- São tantos… - admirava Raj.

Samantha olhou para a Casa e respirou fundo, montando o seu dragão. Esticou a mão para que William a agarrasse e subisse também.

- Vamos acabar com isto – disse, quando Spike levantou voo em direcção à Casa.

 

Faltam dois capítulos para terminar, o que acham até agora?

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2 comentários

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De Yria Rivers a 29.01.2014 às 17:27

Sim, vem aí coisa, eu amanhã ou na sexta vou dar um cheirinho a toda a gente do que é que fala a história e depois vais perceber o porquê do aviso
uau 30 histórias inacabadas são muitas o.o mas eu devo estar lá perto, só que não estão começadas em papel/computador, é só mesmo na minha cabeça
eu vou mesmo tentar repor as minhas leituras, estou só à espera que esta e a outra semana passem e assim fico livre de matemática e já posso descansar.
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De ♥ Annie ♥ a 29.01.2014 às 21:07

Muito gostas tu de me pôr a chorar...
Por momentos pensei mesmo que ele tinha ido para sempre.. OBRIGADA SPIKE!! ÉS LINDO!!
Omd mas eles não estão extintos...!

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