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Armadura do Coração

por Andrusca ღ, em 29.09.13

Capítulo 34

 

- Mas pensei que estivessem extintos – murmurou Elaine, ainda incrédula com o que os seus olhos viam.

- Também eu – disse Raj – Há centenas de anos que não se via um.

Samantha continuava a observar o ser que agora estava adormecido ao seu colo. Era estranho, sentia-se protectora em relação a ele mesmo sem nunca o ter visto antes. Sentia uma ligação a ele. Devagar e com cuidado levantou uma mão e fez-lhe uma festa no cimo da cabeça, recebendo baixinho um ressonar mais pesado.

- Sabes porque é que o Marx queria tanto o ovo de dragão, não sabes? – Perguntou a vidente, ao fim de vários minutos sem nada pronunciar. Samantha olhou para ela com um ar desconfiado. Não gostava desta situação, não confiava nesta mulher que parecia saber tudo e não partilhar nada, porém sabia que lhe devia a sua vida e, por isso, esforçava-se por não mostrar o seu desagrado.

- Claro, com animais destes poderia governar todo o mundo, ninguém lhe desobedeceria – respondeu.

- Não é apenas isso. Um dragão é um ser deveras leal. Porque achas que se dirigiu a ti, Samantha?

- Não sei… estava mais perto?

A mulher abanou a cabeça.

- Eles reconhecem o seu dono. Foi o teu calor que fez com que o ovo chocasse, com que ele pudesse nascer. Aposto até que foste tu quem o encontrou.

- Parece saber muito de dragões…

- E tu pareces saber muito pouco – retorquiu logo a mulher – Há centenas de anos, quem achas que cavalgava nos dragões? Os teus antecedentes. Se pensares nisso, estes seres sempre estiveram ligados a ti. A tua ferocidade, o fogo do teu coração…

- Isso não tem nada a ver com dragões…

- Então os símbolos na tua Casa. Antes de tudo acontecer, o que estava nos estandartes? – Samantha forçou a memória e abriu a boca de espanto. Não se tinha lembrado até agora, mas a mulher talvez tivesse razão – Isso mesmo, dragões. E o teu pai encontrou um ovo perdido de novo, mas decidiu mantê-lo a salvo de tudo. O ovo que tu encontraste agora.

- Então e agora? O dragão pertence-me, é isso?

- Eu… posso jurar que ele está maior – intrometeu-se Milo, tendo a sua razão. Ele estava, de facto, já um pouco mais comprido e largo.

- Os dragões podem chegar à idade adulta em apenas uma semana – explicou a vidente – E preservarem-se assim por décadas. Alguns chegam até a durar um século. Mas a razão por que um ser destes daria imenso jeito ao Marx é outra.

- Qual? – Perguntou Raj.

- Os dragões têm uma característica que faz deles muitíssimo especiais. Reza a lenda que uma lágrima de dragão pode trazer qualquer pessoa à vida, desde que o corpo não esteja ainda frio. Imaginem os soldados que Marx poderia sempre ressuscitar para que lutassem de novo por ele, imaginem que poderia ele mesmo ser ressuscitado se criasse um dragão e este chorasse a sua morte… E se lhes tirarem o coração, tornam-se imortais. O Marx imortal…

- É verdade o que dizem…? – Perguntou Milo – Que um dragão vive apenas enquanto o seu dono vive?

- Não estás a ouvir, rapaz? – Perguntou a mulher, quase com um tom chateado – Disse que dragões podiam sobreviver até uma centena de anos. Mas também tens razão. Sobreviver não é o mesmo que viver – essa frase fez com que Samantha franzisse as sobrancelhas. Era verdade, de sobreviver a viver ia uma grande diferença – Após a morte do dono, o dragão perde o seu potencial. A sua força, o seu fogo, vem da ligação que partilha com o dono. Quando o dono se vai… restam-lhe as lágrimas e as asas. Por isso muitos nunca mais são vistos. Voam para sítios onde ninguém consegue chegar.

Raj levantou-se do chão onde já estava sentado há alguns minutos e suspirou.

- Sam, como te sentes? Temos que começar a andar – disse, com o ar autoritário que usava no exército.

- Não – disse logo a mulher – Devem ficar mais uns dias. A vossa guerreira precisa de se recuperar. E o dragão dela precisa de se fortalecer um pouco mais. Aqui podem descansar, certamente estão esgotados. Aqui estão em segurança.

Ele respirou pesadamente e olhou para os companheiros de viagem.

- O que achas? – Perguntou, para Samantha.

- Não consigo ir muito longe assim, Raj. Sinto-me fraca. E o dragão também não parece estar muito forte. Só uns dois dias. No máximo.

- Devias dar-lhe um nome – opinou Milo.

- Não podemos chamar-lhe “o dragão” para sempre – concordou Elaine.

Samantha olhou para o pequeno aninhado no seu colo, com as asas a cobrirem o corpo, e sorriu.

- Spike. O teu nome é Spike.

Dois dias se passaram e parecia que quanto mais Samantha recuperava, mais Spike crescia. Já era do tamanho de um cavalo, mas continuava a querer brincadeira. Mandava-se para cima de todos, agia como a criança que ainda era, apesar do seu tamanho. No dia anterior tinha conseguido correr, no que decorria tentava voar, ainda sem ter muito sucesso. Dava pequenos saltos enquanto batia as asas, nada mais que isso.

A vidente da floresta cuidava bem dos convidados. Dava-lhes comida, tinha arranjado mais feno pra mais camas, e não deixava que lhes faltasse nada.

- Temos um problema – disse Raj, a meio da conversa que estavam a ter sobre irem embora.

- Qual? – Perguntou Milo.

- O dragão. Está enorme. Como é que o vamos transportar sem ser visto? – Elucidou ele, o que fez com que Samantha olhasse para o seu animal. Era verdade.

- Pelos céus… - acabou por murmurar – Ele vai a voar.

- Ele não consegue voar Sam, ainda é pequeno – disse Elaine.

- Vamos tentar… - Samantha levantou-se e começou a dirigir-se ao exterior, quando chamou o dragão pelo nome este seguiu-a e pararam em frente à gruta – Spike, voa.

Ele tentou, mas não se conseguiu elevar mais de sete palmos. Samantha suspirou e abraçou-o, agarrando-lhe no focinho, fazendo com que ele fizesse um pequeno rugido. Era evidente o quanto aquele dragão a amava, amor esse que era retribuído, e foi isso que lhe deu outra ideia. Ordenou ao dragão que ficasse quieto e começou a afastar-se, desaparecendo no mato. Reapareceu minutos depois, cansada de andar depressa, no cimo da gruta, e olhou para baixo. A queda não a mataria, mas certamente deixá-la-ia em mau estado. Engoliu em seco e assobiou, despertando a atenção do dragão.

- Spike… - gritou, o que fez com que todos viessem de dentro da gruta ver o que se passava.

- Samantha… o que é que estás a fazer?! – Perguntou Elaine.

- Relaxem… - pediu ela – Spike…

- Tens a certeza disto? – Perguntou Raj, já a perceber a ideia da amiga, que o ignorou por completo.

- Spike… por favor não me deixes cair – pediu ela, ao dragão. Depois de engolir em seco fechou os olhos e deixou-se cair para a frente. Não passaram mais de três segundos até Spike saltar até ela e, em voo, a apanhar deixando-a pousada às suas costas. Samantha, ao sentir-se amparada, abriu os olhos e soltou um sorriso enorme ao ver a paisagem de lá de cima, atrevendo-se até a abrir os braços como se voasse como dragão. Deram mais uma volta às árvores e voltaram a pousar no chão, de onde Spike tinha levantado voo. Samantha desceu dele e respirou de alívio, abraçando-o e dando-lhe um beijo no nariz.

- Eu sabia que não me desapontavas… - disse, voltando-se depois para os outros – Vão buscar os cavalos… Está na hora de irmos ter com o Will.

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2 comentários

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De Annie a 30.09.2013 às 20:45

Oh Meu Deus, adorei o que a Sam fez para por o Spike a voar.
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De ♥ Annie ♥ a 03.10.2013 às 16:25

Mas a Sam é doida mesmo... Mas ao menos já pos o Spike a voar e já podem voltar. AI que bom, ela e o Will vão voltar a estar juntos... masl posso esperar!
Ela e o Spike são mesmo muito amorosos *.*

Pois deve mesmo ser isso. E talvez haja meis pessoas assim e por isso não veem ler nem comentar. Mas vais ver que isto passa :)

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