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Armadura do Coração

por Andrusca ღ, em 03.08.13

Capítulo 29

 

À medida que ia avançando pelas ruas de Walcaster, o coração da jovem guerreira ia-se apertando. Era evidente que as pessoas estavam mais pobres que nunca, com fome, desesperadas. Mas foi quando chegou à entrada para a Casa que atingiu o seu auge. Pensava que podia ir lá e agir como se não se tivesse passado nada. Que podia enganar o seu coração a não sentir nada. Mas estava enganada. Sentia tudo. E mais fortemente do que alguma vez se permitira.

A Casa, um castelo de pedra, estava já todo reconstruído, sem quaisquer restos do incêndio que o destruíra parcialmente há uma década. Continuava erguido, com o seu ar forte e majestoso, mas Samantha sabia que o seu espírito já não era o mesmo. Sabia que não se ouviriam os risos dos seus irmãos e seus a correrem pelos corredores, sabia que não haveria aquela vida que dava todo o esplendor à casa. Já tinha chorado por eles. Pelos seus irmãos, pelos seus pais. Chorara até às lágrimas secarem. Chorara como nunca mais chorara na vida. Parecia até que enquanto essas lágrimas saíam, também a sua empatia e amor saíam com elas. Um soldado não precisava disso. Apenas de força, de coragem. Mas o seu plano tinha-lhe saído furado. Desde que reencontrara William, tudo o que perdera naquela noite estava a regressar e, de súbito, havia dias em que se sentia como a rapariguinha indefesa que era há dez anos atrás.

Desceram dos cavalos, que seriam arrumados pela criadagem, Marx saiu da carruagem, e juntaram-se em frente à entrada da Casa. Era abordado pelos criados, que já o conheciam, ao mesmo tempo que Samantha era observada também por eles. Tinha-lhes chegado a mensagem de que a herdeira de sangue de Walcaster estaria a chegar, e alguns deles, apesar de ela não se lembrar, serviram também os seus pais e cuidaram de si enquanto bebé. Para ela não passavam de estranhos… todos, menos um. A agarrar num dos cavalos estava um rapaz com menos de quinze anos, olhos claros e cabelos sujos, tal como as roupas pobres que usava. Samantha franziu as sobrancelhas, mas ignorou aquele rapaz do estábulo e seguiu o lorde para dentro da Casa. Estava diferente do que aquilo que se lembrava. Talvez fossem as remodelações de Marx, que fizera daquela a sua moradia oficial, que davam um ar mais sinistro ao que anteriormente tinha sido um lar feliz.

- Mostrem os aposentos à lady Samantha – ordenou aos criados em geral, voltando-se depois para a rapariga – Por hoje podes repousar. A começar de amanhã quero que cumpras o nosso acordo. Estamos entendidos?

- Entendidíssimos, lorde Marx – Disse ela, com um pouco de insolência na voz – Eu sou uma mulher de palavra.

- Mulher – riu ele – Mal passas de uma miúda.

Depois do seu comentário infeliz, disse que ia para o seu quarto e não queria ser incomodado até à hora do jantar, embora ainda fosse de manhã.

Samantha foi levada por uma senhora e um guarda aos seus aposentos, e Raj dirigiu-se aos dos guardas para descansar também um pouco. Samantha parou em frente à porta que lhe indicaram ser a do seu quarto, e ficou completamente paralisada sem a abrir.

- O que se passa? – Perguntou-lhe a mulher.

- Este quarto é… era… - Samantha forçou-se a engolir em seco enquanto as imagens lhe apareciam na cabeça a toda a velocidade. As memórias. Os seus irmãos esquartejados sob os lençóis claros ensanguentados. Abriu a porta de rompão e verificou que já nada naquele quarto que outrora era partilhado se mantinha igual.

- O lorde Marx ordenou que fosse este o seu quarto – continuou a mulher – É maldoso, bem sei.

Samantha sorriu ligeiramente, um sorriso com alguma ironia, enquanto observava agora o quarto com apenas uma cama e uns quantos adornos e tudo o que era necessário.

- Podem ir embora, eu fico bem – disse, fechando de novo a porta – Não estou cansada, acho que vou deambular um pouco. Afinal… esta era a minha Casa, e sinto que já nem a conheço.

O guarda obedeceu, porém a mulher não moveu um pé. Observa-a com toda a minúcia, e a rapariga decidiu observá-la também. Não tinha muita idade, mas estava velha, desgastada.

- Se me permite, lady Samantha – disse ela, num tom quase sussurrado –, esta ainda é a sua casa, não devia deixar que um homem como o Marx ficasse com ela. A sua sobrevivência ao horror que aconteceu foi um milagre… não devia ser em vão.

A rapariga não esperava aquilo, foi quase como que um pedido. Como se a mulher lhe implorasse que corresse com Marx dali.

- Desculpe mas… Eu sei que não tenho feito nada para o tirar daqui, mas…

- Tem lutado – interrompeu-a ela – Sei que tem.

- Como é que se chama?

- Matilda. Chamo-me Matilda e… tenho trabalhado nesta Casa há vinte anos, lady Samantha.

- Então conhece-me… eu não me lembro… lembro-me de tão pouco… - e dito aquilo, lembrou-se de outra coisa – Perdoe-me, Matilda, mas tenho de ir a um sítio. Prometo que voltamos a falar.

Deixou a mulher especada no corredor e começou a andar de um modo apressado até aos estábulos. Da última vez que fizera aquele caminho assim a sua casa estava a arder. Rezou para que ele ainda lá estivesse, e estava. A dar de comer aos cavalos, naquele estábulo agora sem mais ninguém, estava o rapaz que ela vira há momentos atrás. Caminhou até ele e tocou-lhe no ombro, para que se virasse, deixando-o de boca aberta.

- Samantha… - murmurou.

- Eu conheço-te – afirmou ela – És o rapaz daquela taberna… o que me defendeu.

Ele sorriu, nunca pensou que ela se lembrasse de si.

- Milo – disse-lhe.

- Sim… Milo, o que é que fazes aqui?

- Vivo aqui.

- Vives em Walcaster?

- Não… quer dizer sim, mas vivo aqui. Na Casa. Sou o rapaz dos estábulos. Os meus pais moravam aqui também.

- E onde estão agora? Os teus pais?

Milo olhou para baixo e abanou a cabeça.

- Com os seus. Vítimas da mesma noite. A minha tia sobreviveu, e ficou a tomar conta de mim… vivemos ambos aqui.

Samantha baixou o olhar e respirou pesadamente. Às vezes esquecia-se que não tinha sido a única tornada órfã naquela noite. A única a perder alguém. A única a ficar desamparada.

- Lamento Milo – proferiu.

- Não faz mal – disse ele, pondo um sorriso nos olhos – Eu sei que lhe vai dar cabo do cacete, por isso não faz mal.

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2 comentários

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De francis marie a 05.08.2013 às 19:23

Adoreiiiii *-----------*
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De ♥ Annie ♥ a 06.08.2013 às 19:43

Pobre samantha :s
Sim, eu sabia que esse rapaz ia voltar a aparecer!
É bom saber que as pessoas a apoiam e esperam que ela derrube o marx :)

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